CAPÍTULO 7 - O CULTO CATÓLICO E SUAS CERIMÔNIAS E SEUS SÍMBOLOS

CAPÍTULO VII
EXPLICAÇÃO DAS CERIMÔNIAS DA MISSA – II PARTE

Chegamos na parte mais solene e mais tocante do Sacrifício, pois suas cerimônias, depois do Credo até o Pai Nosso, vão retraçar em um simbolismo impressionante, as cenas dolorosas da paixão de nosso divino Salvador.

Para penetrar fielmente na santidade dos mistérios renovados então sobre o altar, nos primeiros séculos, um diácono, apos o canto do Evangelho e a homilia, pronunciava as seguintes palavras: “Os santos mistérios são somente para os santos”. Assim, os infiéis, os catecúmenos e os pecadores públicos, deixavam a assembléia. Isso de dava porque a Igreja não poderia esquecer que os Apóstolos e algumas mulheres piedosas, foram as únicas testemunhas das grandes coisas ocorridas no Cenáculo, no jardim das Oliveiras, no pé da cruz, e no santo sepulcro. Esses mesmos prodígios do amor vão se renovar no tempo, a Igreja poderia admitir aí outras testemunhas, que não as almas puras e santas, amigas privilegiadas do Salvador?

Hoje sua disciplina é menos severa. Dilatando as entranhas de sua caridade, ela permite que todos, indistintamente, assistam a esses mistérios três vezes santos. Mãe terna, ela age assim na esperança que este espetáculo tocará os mais endurecidos; pois, se as rochas do Gólgota se quebraram de dor pela morte de Jesus, os corações cristãos poderiam permanecer insensíveis na presença da santa Vítima que os resgatou por seu sangue?

Uma atenção mais firme, uma fé mais viva, uma piedade mais terna, eis o que se exige de nós, a parte da Missa que vamos explicar.

I. O CREDO OU A PROFISSÃO DE FÉ

“A Igreja faz recitar o Credo, ensina S. Boaventura, para nos ensinar que devemos crer firmemente em tudo o que Jesus Cristo ensinou e em tudo o que os Evangelistas escreveram (165)”.

Vários concílios determinam que o Credo seja cantado por todo o clero e o povo, desde o começo até o fim, para exprimir que todos os assistentes, sem exceção, o aderem com a boca e o coração em toda sua integridade. Esta prática mostra também que a fé, do qual se faz nesse momento uma profissão solene, é una como o Deus que a nos revelou, e não dividida como o erro que só admite parcialmente a verdade.

Nos primeiros séculos não se recitava o Credo na Missa. Mais tarde, a Igreja ordena dizê-lo em todas as assembléias de fiéis para preveni-los contra os erros que começavam a correr o mundo.

Primeiro sinal dos verdadeiros crentes, ele foi, em seguida, dito para proclamar, de gerações em gerações, os triunfos da Igreja sobre as antigas heresias. Esses detalhes nos explicam porque a Igreja não recita o símbolo todos os dias, mas somente nos domingos e nas festas, quando há um grande concurso de fiéis.

S. Luis, rei de França, retornando de sua primeira cruzada, e penetrado pelas lembranças de Belém e do Calvário, fez estabelecer o uso de honrar, em flexionando os joelhos, as humilhações do Verbo encarnado, nestas palavras do Credo: “Et homo factus est”. A genuflexão começava nas palavras “descendit de cœlis” e só se levantava com o “resurrexit”, de modo que os gestos correspondiam às palavras.

O sinal da cruz, no fim do Credo, é um uso bem antigo. Os fiéis o traçavam sobre eles, pronunciado as palavras: “Carnis resurrectionem” – a ressurreição da carne – que terminava então o símbolo dos Apóstolos. Dizendo carnis, se colocava a mão na fronte, como para dizer: “Eu creio na ressurreição desta carne que eu toco”. O sinal da cruz, no fim do símbolo, também é um protesto de nosso compromisso com a fé. Nós nos declaramos prontos à defendê-la até a morte.

Apreciemos, saboreemos, em as recitando, cada uma das palavras do Credo. Onde nossa piedade poderia achar um alimento mais delicioso e mais abundante? Ora, o Deus todo-poderoso que, com uma palavra cria os céus com seus astros, a terra com suas riquezas; Jesus Cristo, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, que por nós, desceu do céu, foi crucificado sob Pôncio Pilatos, foi sepultado, e no terceiro dia, ressuscitou dentre os mortos.

Et in unum Dominum Jesum Christum, Filium Dei unigenitum. Et ex Patre natum ante omnia sæcula. Deum de Deo, lumen de lumine, Deum verum de Deo vero. Genitum, non factum, consubstantialem Patri: per quem omnia facta sunt. Qui propter nos homines, et propter nostram salutem descendit de coelis.

Sim, esse mesmo Jesus, sentado à direita de seu Pai, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Esse mesmo Deus, ó! Poder-se-ia pensar seriamente sem responder com lágrimas de alegria, que em alguns instantes, (Ele) virá sobre este altar se encarnar, se imolar, se sepultar para nossa salvação?

II. O OFERTÓRIO OU O CENÁCULO

Durante o Credo, se despedindo do celebrante que o envia, o diácono vai com o mestre de cerimônias, como os dois Apóstolos do qual fala o Evangelho, preparar no altar, aquilo que lhe é necessário para a Páscoa cristã. E o celebrante, que então entra no santuário e sobe ao altar, representa, diz o Rational(166), Cristo entrando na câmara alta, toda mobiliada, para ali fazer a oferenda não sangrenta de seu corpo e de seu sangue. Em reconhecimento, a Igreja, nesse momento, pede aos fiéis uma oferta de seus bens, pão, vinho, óleo, dinheiro(167).

Quem poderia recusar para Aquele que, em sua última Cena, não hesitou em tudo nos dar, em se entregando por nós em sua adorável Eucaristia? E Ele o faz com sentimentos de uma alegria manifestada em cada uma de suas palavras, alegria traduzida pela Igreja em seu canto do Ofertório. É, portanto, para o Cenáculo, que as cerimônias da Missa vão nos transportar agora.

O padre toma entre suas mãos o pão sem levedura, e o deposita sobre a patena: “Receba ó Pai santo, diz ele, esta oferenda que eu vos faço”.

Suscipe, sancte Pater, omnipotens æterne Deus, hanc immaculatam hostiam, quam ego indignus famulus tuus offero tibi, Deo meo vivo et vero, pro innumerabilibus peccatis, et offensionibus, et negligentiis meis, et pro omnibus circumstantibus, sed et pro omnibus fidelibus Christianis vivis atque defunctis: ut mihi, et illis proficiat ad salutem in vitam æternam. Amen.

O padre chama o Deus da infinita majestade, por seu pai! Até aqui, o padre o nomeou de Altíssimo, o Senhor, o Todo-poderoso, mas jamais ousou lhe dizer: meu Pai. Donde lhe vem esta santa ousadia? De Jesus Cristo, do qual ele toma o lugar, no Cenáculo, se servira destas mesmas expressões de filial confiança(168).

O padre derrama, em seguida, o vinho no cálice e, ali, ajunta um pouco de água, assim como Cristo fez na Cena. O sentido desta prática nos é dada por S. Cipriano(169), em uma carta dirigida à Cecilius: “A água derramada no cálice esboça o povo cristão, e o vinho o sangue de Jesus Cristo. Quando o vinho é misturado com a água no cálice, é então o povo resgatado que se identifica com Jesus Cristo. Essa mistura da água e do vinho se opera, de tal modo no cálice, que lhes separarem é impossível. Do mesmo, nada poderia separar Jesus Cristo da Igreja, ou seja, o povo fiel constituindo a Igreja, enquanto que ele perseverar na fé”. O papa Júlio, em uma carta aos bispos do Egito, dá à mistura do vinho e da água o mesmo significado.

Por isso, compreendemos por que só se coloca um pouco de água no cálice. “É, diz o concílio de Tibur, dado em 895, afim de que a majestade do sangue de Jesus Cristo ali seja mais abundante que a fragilidade do povo representado pela água(170). Uma gota de água basta, pois ela representa admiravelmente nosso nada na presença do Deus da Eucaristia, assim como exprimia com energia o profeta Isaias: “Eis que todas as nações juntas são diante de Deus como a gota d’água que cai de um vaso cheio(171)”. E na carta dirigida aos Armênios pelos padres do concílio de Florença: “não devemos, é dito, colocar no cálice mais do que uma pequenina quantidade de água, para melhor exprimir o pequeno número dos eleitos mergulhados na imensidão de Deus”.

O padre abençoa somente a água. Ela figura o povo cristão que tem necessidade de ser purificado a fim de se unir à Jesus Cristo. Ele não faz sobre o vinho a mesma cerimônia, pois o vinho representa o sangue do Salvador, fonte de toda benção(172).

Nas Missas para os defuntos, o padre não abençoa a água, pois, nos sacrifícios oferecidos pelos mortos, ela simboliza as almas do Purgatório, sobre as quais a Igreja não tem nenhuma jurisdição, e do resto, elas já estão na graça com Deus(173).

Mas, segundo o santo Concílio de Trento, a mistura da água com o vinho não recorda somente a mistura que Nosso Senhor fez nele mesmo, ou seja, a sua união com o povo cristão. Ela ilustra ainda uma circunstância de sua morte. Tendo rendido o último suspiro, quando um soldado armado de uma lança se aproxima dele e abre violentamente seu lado, logo lhe escapa sangue com água. Esse mistério será renovado no Sacrifício, após o Pai Nosso. A Igreja, não obstante, quis, neste momento, lhe consagrar uma lembrança.

Este último significado dado à mistura feita no cálice é claramente exprimida em várias liturgias. Lemos em S. Pedro, que os Apóstolos, em derramando a água e o vinho para o sacrifício, diziam estas palavras do Evangelho: “Um dos soldados com uma lança perfura o lado de Jesus Cristo, e em seguida sai dele sangue e água”. Como que para receber esta divina efusão, desde muito tempo se coloca cálice à direita da hóstia.

Percebemos que após a oblação do pão, o celebrante coloca a patena sob o corporal. Nas Missas solenes, ela é posta pelo subdiácono que, se distanciando do altar, a esconde entre suas mãos até o Pai Nosso. Sob esta cerimônia, devemos entrever a fuga dos discípulos, vagamente escondidos na hora da Paixão. Mas, após o Pai Nosso, o celebrante recoloca a patena sob o corporal, ou a pega das mãos do ministro que está próximo do altar. É a imagem do retorno dos discípulos, do qual um entre eles, vem reclamar o corpo de seu Mestre para lhe dar as honras da sepultura.

No ofertório do pão, coloquemos nossos corações sobre a patena e rezemos para Deus, cujo poder vai mudar este pão, em seu corpo e em seu sangue, para que transforme também nossos corações em, os tornando parecidos ao coração divino de Jesus Cristo. No ofertório do vinho, coloquemos no cálice as lágrimas que derramamos e que ainda derramaremos, afim que, por sua união com o sangue de Jesus Cristo, elas percam sua amargura e nos obtenham os maiores méritos. Que a mistura do vinho e da água nos recorde, além do mais, a união estreita, iniciada pelo batismo e consumida pela comunhão, com Jesus Cristo, do qual nós somos os membros. Um dia, assim como esta gota de água perdida e confundida na substância do vinho, estaremos imersos na imensidão infinita de Deus. O padre o pede, a peçamos com ele.

III. A INSENSAÇÃO OU OS PERFUMES DE MARIA MADALENA

Éuma cerimônia própria das Missas solenes, cuja explicação é a seguinte: Madalena, a santa mulher do Evangelho, aquela que tinha recebido esta promessa de Nosso Senhor, de que “em toda parte onde a palavra evangélica for anunciada, se recordará com elogios sua generosa caridade(174)”; poderia ela, não ter uma lembrança especial neste augusto Sacrifício, memorial do sacrifício da cruz, o qual ela assistiu corajosamente e agoniada, com a santa Mãe do Salvador?

Não, a Igreja não esquecerá a consoladora figura da pecadora de Betânia, e ela se alegra em dizer com todos os anjos, e em toda parte onde o Evangelho será pregado, em toda parte onde haverá um altar católico, a piedosa generosidade da penitente, que derrama perfumes caros sobre a cabeça e os pés do divino Mestre.

Três vezes, lemos no Evangelho que, Madalena quis honrar, pela efusão de seus aromas, o corpo de Jesus. Primeiro na casa de Simão, o fariseu, depois entre Simão, o leproso, e em seguida no santo sepulcro. Em lembrança desta tríplice efusão, o padre, no Ofertório, também espalha três vezes os perfumes do incenso sobre o pão e o vinho, destinados a se tornarem, tão logo, o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

A incensação, feita inicialmente em forma de cruz, depois em forma de coroa, nos recorda a paixão de Jesus Cristo, profetizada por Madalena, e nos eleva, por este pensamento, à coroa da glória que carrega essencialmente a santa Trindade, e que a humanidade do Salvador recebeu após as ignomínias do Calvário.

Os perfumes de Madalena figuram a graça da qual o Salvador estava preenchido, segundo a santa Escritura: “Eis que o odor que se espalha de meu Filho é parecido ao odor de um campo repleto de flores”. Este bom odor da graça, se derrama sobre os povos, por meio dos Apóstolos e dos ministros, como nos assegura S. Paulo: “Deus derrama por nós, em todos os lugares, o odor de seu conhecimento”. Sto. Tomás vê a Igreja figurando este mistério, incensando completamente o altar, que designa Jesus Cristo, e em seguida os padres e os fiéis(175).

Durante a cerimônia de incensação, se estamos em desgraça, vivendo no pecado, sondemos a misericórdia de Jesus Cristo para com os pecadores. Façamo-nos mil vezes mais culpáveis que Madalena, e Ele nos acolherá sempre com ternura e docilidade. Assim como Ele fez com ela, Ele nos dirá esta palavra de perdão “Vá em paz, vossos pecados vos são perdoados(176)”.

Se formos estes pobres filhos pródigos que voltam para Deus, depois de numerosos equívocos, que o exemplo da pecadora convertida nos ensine a derramar sobre os pés do Senhor, os perfumes de um coração partido pelo arrependimento e consumido pelas santas chamas da caridade.

IV. O LAVABO OU O LAVA-PÉS

Como seu divino Mestre no Cenáculo, o padre ofereceu o pão e o vinho. Ele colocou água no cálice, mas eis que aqui, ele se recorda que, antes de dar a santa Eucaristia para seus apóstolos, Nosso Senhor lhes lavou os pés para completar sua purificação, e que Ele também lhes disse: “Aquele que foi limpo não tem necessidade de lavar-se, ele está inteiramente puro(177)”. O padre está puro, ele se lavou no banho salutar da penitência, mas a lama da estrada pode ter respingado sobre ele. O lava-pés estaria, sem dúvida, mais de acordo com esta memória, mas, nos basta, diz Sto. Tomás, a ablução das mãos.

Esta cerimônia, mais solene no tempo dos Apóstolos, recordaria ainda melhor a cena do lava-pés, feito no Cenáculo. Por isso, todos os diáconos e os subdiáconos lavam suas mãos, ao mesmo tempo em que o padre.

Assim, rezemos para Nosso Senhor purificar nossa alma de suas impurezas pela virtude das lágrimas que Ele derramou sobre os pés do traidor Judas, quando Ele os lava no Cenáculo, e pelos méritos de seu sangue derramado por cada um de nós, até a última gota.

V. A SECRETA OU A ORAÇÃO NO JARDIM DAS OLIVEIRAS

Do padre no canto do altar, após o lavabo, voltemos seguindo-o, passo a passo, na Via Dolorosa em que ele vai entrar. Ao terminar a refeição do Cenáculo, Nosso Senhor recita um hino em ação de graças, e ao terminá-lo, Ele parte para o jardim das Oliveiras. Após o Ofertório, o padre também recita um hino, e vai, em seguida, para o centro do altar em memória do trajeto feito por Jesus Cristo do Cenáculo até o Getsêmani.

Mal Ele chega, Ele se coloca em oração. Mas as águas do abatimento e da aflição, segundo a enérgica expressão dos santos livros, inundaram de tal forma sua alma, que Ele cai em uma profunda agonia, com a face contra a terra. Chegando ao meio do altar, o padre, a exemplo de seu divino Mestre no Getsêmani, também ora, e em atitude de abatimento, ele se inclina. Suas mãos juntas, são como as mãos de um criminoso, sua face se volta para a terra.

Alguns momentos mais tarde, Nosso Senhor, indo até seus Apóstolos, os acha dormindo vagamente: “O que, disse ele com dor, vocês não podem vigiar uma hora comigo? Agora que o grande momento se aproxima, vigiem e orem(178)”. O padre, que se levanta, interrompe sua oração e se volta para os fiéis, dizendo: “Orate fratres”, “é, diz S. Boaventura, Nosso Senhor no jardim as Oliveiras, exortando seus discípulos a orar, afim de não sucumbirem à tentação(179)”.

Assim, consideramos na pessoa do padre, o próprio Jesus Cristo que nos olha com uma afetuosa compaixão e que nos diz: “Orate fratres! Desde o início do Sacrifício, vocês mal pensaram em mim. Como meus Apóstolos, Eu vos encontro dormindo na tibieza. Acordem agora de vossa sonolência e rezem, pois trata-se de vossos interesses mais caros. Rezem, afim de que o sacrifício onde Eu vou oferecer meu corpo e meu sangue, tendo agradado meu Pai, atire sobre vós os mais abundantes benefícios”.

VI. O PREFÁCIO OU O CANTO DO TRIUNFO

Entramos na Via Dolorosa. Já nos chegam os clamores da multidão, sinistros precursores da tempestade. Algumas horas mais, e o Filho de Deus “será entregue, açoitado, escarnecido, morto e contado entre os vilões”. Aos clamores deicidas, a Igreja opõe o canto do amor, e o Prefácio é a reparação das blasfêmias lançadas contra a divindade de Jesus Cristo. A Paixão foi a fonte de todos os bens. A Igreja agradece a Deus por Nosso Senhor. Mas, ela sabe de sua incapacidade em cumprir este dever com dignidade, e os anjos, os arcanjos, os tronos, as dominações e todas as virtudes celestes são convidados para vir cantar, com suas harpas harmoniosas, o Sanctus da eternidade. Tal é o sentido geral do Prefácio, nomeado pelos gregos como Hino triunfal.

É com o rosto velado por suas asas, a fronte profundamente inclinada, na atitude de adoração mais profunda, que os espíritos celestes rendem, no céu, estes sublimes acentos. Anjo da terra, o padre gosta de imitar aqui, seus irmãos dos céus, e como eles, se curva recitando o canto celeste.

Seguindo o hino do céu, temos o canto que acolhe Jesus Cristo quando de sua entrada em Jerusalém. Ele é acompanhado do sinal da cruz. As alegrias do triunfo foram de curta duração, pois alguns dias mais tarde, esse mesmo povo, em voz alta, pedia o suplício dos infames, para Jesus, recebido anteriormente como um rei aos cantos repetidos do Hosanna. Todas estas lembranças, de uma ingratidão sem igual, nossa alma encontrará no sinal da cruz abarcada entre o Hosanna e o Benedictus.

VII. O SILÊNCIO DO PADRE OU O SILÊNCIO DE NOSSO SENHOR EM SUA PAIXÃO

Nosso divino modelo “conduzido ao suplício”, como um cordeiro ao matadouro, não abre a boca para reclamar. Ele fica em silêncio diante os insultos da prisão; Ele se cala sob os golpes dos carrascos do Pretório; Ele se cala diante as crueldades e as blasfêmias do Calvário. Durante três horas, sob a cruz, Nosso Senhor reza em silêncio; seus lábios não deixam sair mais que sete palavras, vindas para nós, como o testamento de seu coração. Quão tocante é ver seu representante sobre o altar, rezar em voz baixa desde o Ofertório até a Comunhão, ou seja, durante esta parte da Missa que é, propriamente falando, o Sacrifício. Ele não interrompe esse misterioso silêncio mais que sete vezes, no Orate fratres, no Prefácio; no Nobis quoque peccatoribus; no Pai Nosso; no Pax domini; no Agnus Dei; no Domine non sum dignus.

Lemos ainda no relato da paixão, que Jesus Cristo, antes de morrer, lança dois gritos aos ecos do Gólgota. S. Mateus é explícito: “Na nona hora, Jesus dá um grande grito, dizendo: meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes? Pouco tempo depois, Ele lança um segundo suspiro”. No altar, novo Calvário, só escutamos o sacrificador romper o silêncio de sua oração, da Elevação ao Pai Nosso, em duas circunstâncias: uma no Nobis quoique peccatoribus, e outra no Per omnia secula seculorum, antes da oração dominical.

VIII. O CÂNON OU A PAIXÃO

No padre inclinado, consideramos Jesus Cristo obediente até a morte, recebendo com submissão, sobre seus ombros feridos, o instrumento de seu suplício. A submissão às ordens de seu Pai tinha por companhia, em seu coração, uma imensa ternura por nós. O beijo dado no altar pelo padre, designa este ardente amor. Os três sinais da cruz, traçados em seguida sobre a matéria do Sacrifício, nos recordam a ação da augusta Trindade nos mistérios de nossa Redenção. As três Pessoas nela intervieram. O Pai “não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por nós; o Filho entrega sua alma à morte; o Espírito Santo derrama sobre o divino holocausto os ardores da caridade”.

Do Sanctus à Elevação, nosso pensamento e nosso coração, sobretudo, acompanharão Nosso Senhor entre Caifás, Herodes, Pilatos. Em companhia de Maria e das santas mulheres, ele o seguirá nos traços de seu sangue, sobre o caminho do Calvário. Diante de tal sofrimento e perfeita resignação, seria de mármore o coração sem compaixão! Como piedosa prática, capaz de nos levar ao recolhimento, pelas três orações que abrem o Cânon, honramos a tríplice queda da subida do Gólgota.

IX. A IMPOSIÇÃO DAS MÃOS OU A CRUCIFICAÇÃO

A imposição das mãos era vista nos sacrifícios, como um símbolo da translação dos crimes do homem sobre a cabeça da vítima. Naturalmente, foram levados a designar pelas mãos, freqüente instrumento da iniqüidade, os crimes cujo homem se contaminava. Impunham-se, também, as mãos, sobre a cabeça dos condenados à morte. O Imortal foi condenado a morrer uma vez; e cada pecador renova contra Jesus esta sentença de morte, que seria executada, se a morte tivesse poder sobre Ele. O padre, por esta prática litúrgica, carrega, portanto, sobre a Vítima, as iniqüidades de todo povo, afim de que, Ela os expie em seu sangue.

Os sinais da cruz, freqüentemente repetidos, tornam viva a cena da crucificação. Pelo pensamento, assistiremos a esse drama comovente. Estejamos atentos ao som repetido dos martelos sobre os pregos. Consideremos as feridas sangrentas e o sangue jorrando livremente.

X. A ELEVAÇÃO OU NOSSO SENHOR LEVANTADO NA CRUZ

“Lembre-se, diz o padre Nouet, da elevação de Jesus Cristo na cruz, todas as vezes que o adorares durante a elevação da hóstia. Veja como Ele beija seu mestre, para vos dar o beijo da paz; como Ele abre os braços, para vos abraçar; (veja) como suas mãos estão perfuradas para vos engrandecer com seus dons; como seus pés estão pregados, para permanecer convosco”.

Nossos pais, na Elevação, inclinavam profundamente a cabeça em sinal de respeito para com a fronte augusta do Salvador, rasgada pelos espinhos da coroa. Ao mesmo tempo, eles flexionavam os joelhos em expiação das genuflexões corriqueiras do Calvário. Praticamos esse mesmo costume, mas ele é feito sempre com recolhimento de espírito e emoção no coração?

O padre tomando o cálice, o coloca aos pés de Jesus, como que para receber o sangue jorrando livremente de todas sua feridas. Após a consagração, ele o adora, e os fiéis curvam a cabeça com ele em adoração. As oliveiras do Getsêmani, as varas da flagelação, os espinho da coroa, os cravos do Calvário, a lança do soldado, foram rugidas do sangue encerrado no cálice e elevado acima de nossas cabeças. Ele contém, além desse sangue divino, todos os suores que banharam a oficina de Nazaré, os caminhos da Judéia, a subida do Calvário. Ele contém as lágrimas derramadas na manjedoura, na tumba de Lázaro, em face de Jerusalém, e sobre cada um de nós! O adoremos com fé e amor.

O Calvário! A Cruz! O Redentor! Que esses pensamentos nos sejam constantemente presentes no momento do Sacrifício. Que nossos olhares sobre o altar nos recorde dessas grandes lembranças.

Em seguida, o padre flexiona o joelho diante de Jesus Cristo, em reparação da homenagem hipócrita de adoração, dada pelos judeus sobre o Calvário. Cada vez que ele pronuncia o nome do corpo ou do sangue do Salvador, ele faz o sinal da cruz sobre a hóstia e sobre o cálice para professar que ele está diante do corpo e do sangue de Jesus crucificado. Se ele o faz cinco vezes, é em memória das cinco chagas da adorável Vítima. O beijo depositado sobre o altar ilustra a reconciliação operada entre o céu e a terra pelo sangue redentor. Com o corpo inclinado, o padre ilustra a humildade de Jesus Cristo suspenso sobre a cruz e rezando por nós.

Os tormentos sofridos pelo Salvador, nas chagas de seu corpo e na efusão de seu sangue, e que nos são aplicados se abraçarmos as austeridades da cruz, são recordados por dois sinais da cruz feitos sobre o corpo e o sangue do Salvador, e por aquele que o padre traça sobre si mesmo.

Os diáconos, a partir do Cânon, atrás do celebrante, representam os Apóstolos abandonando seu mestre na hora da paixão. Em algumas igrejas, onde a disposição permite, os subdiáconos se fixam atrás do altar com a face virada para o celebrante. Enquanto os Apóstolos fogem, amigas do Salvador, as mulheres observavam de longe as cenas dolorosas do Calvário: o subdiácono recorda esta circunstância, bem como no momento em que a liturgia celebra a sepultura de Jesus Cristo, onde ele volta ao altar sobre os rastros dos discípulos fiéis e das santas mulheres, pois, com eles, ele deixará a tumba mística após esta piedosa cerimônia.

Da Elevação ao Pai Nosso, há cinco orações na liturgia, assim como as cinco chagas de Nosso Senhor. Recitamos a primeira com Maria, mãe das dores, ao pé cruz. Na segunda, nosso coração se unirá ao Apóstolo bem amado. Durante a terceira, derramaremos as lágrimas da penitência sobre os pés de Jesus, com Maria Madalena. Na quarta, nos associaremos às santas mulheres. Na quinta, pediremos por misericórdia, assim como o bom ladrão.

Aqui nos cabe um retorno histórico antes de prosseguirmos. Até o século XII, o celebrante, após ter adorado em silêncio o corpo e o sangue de Jesus Cristo, prosseguia o Sacrifício. A Elevação ocorria somente antes do Pai Nosso. Ocorre que Bérenger, arquidiácono de Angers, ousa (neste período) atacar o dogma da presença real, e como repulsa desta heresia, vários padres, após a adoração feita em silêncio, mostravam aos fiéis a hóstia e o cálice, e estes, prosternados, lhes rendiam as mesmas homenagens. Um dos primeiros e dos mais zelosos propagadores destra prática foi Hildeberto, bispo de Mans. Após ter, diz-se, aderido aos sentimentos heréticos de Bérenger, ele quis por esse meio, fazer a Jesus uma solene reparação. Gregório IX, mais tarde, ordena que na Consagração se toquem os sinos, afim que os fiéis, advertidos por esses trompetes da Igreja militante, pudessem se unir em sentimentos comuns de adoração e de reconhecimento. E víamos ao som do bronze sagrado, os fiéis se ajoelharem, em suas casas, sobre as praças, nos campos, professando solenemente sua fé na Eucarística.

O costume de agitar um pequeno sino durante o Cânon, é anterior a esta época. Na Inglaterra, tinham-se cálices munidos de um pequeno sino nas duas alças. Os fiéis podiam, assim, perceber facilmente os movimentos do padre, escondido sob as cortinas do altar.

Quanto ao canto, o Salutaris, após a Elevação, é um rito recentemente introduzido na liturgia. A pedido de Louis XII, os bispos da França estabeleceram esse cerimonial após as guerras que perturbaram o reino. As palavras exprimem o voto de pacificação. O canto foi mantido em seguida, como um grito de angústia sempre presente sobre os lábios do cristão, em sua vida militante.

XI. O MEMENTO DOS MORTOS OU OS JUSTOS RESSUSCITADOS POR CRISTO

Nosso Senhor, na cruz, se lembra dos justos mortos em sua graça: “as tumbas se abriram e vários ressuscitaram(180)”. Esse mesmo Deus, mestre soberano da vida e da morte, está ali sobre o altar. O padre lhe recomenda as almas daqueles que nos precederam e que dormem no sono da paz. Ele o conjura a deixar cair sobre elas, o orvalho benfazejo de seu sangue, e de lhes acordar um lugar de repouso, refrescante e de luz.

Nesse momento, rezamos para todos aqueles que perdemos. Pela fé, vemos os anjos desses defuntos descerem no abismo do purgatório, portando o sangue divino. Quão consolador é para nosso coração o pensamento de que um grande número dessas pobres e queridas almas recebem, nesse momento, o alívio em seus sofrimentos. Algumas dentre elas, inteiramente purificadas, vêm em torno do altar, se juntar à nós, aos anjos e aos santos, para adorar o Redentor.

XII. O NOBIS QUOQUE PECCATORIBUS OU A ORAÇÃO DO BOM LADRÃO

Com estas palavras do Cânon: “Nobis quoque peccatoribus”, o padre eleva a voz e bate no peito, representando o arrependimento, a confissão e a oração do ladrão crucificado à direita de Nosso Senhor. Se reconhecendo culpado: “Para nós, dizia ele a seu companheiro, nós só recebemos o que merecemos”. Em seguida, se recomendando ao Salvador, ele acrescenta: “Lembre-se de mim quando estiveres em vosso reino(181)”. Encorajado por essa recordação, o padre ousa pedir um lugar no céu com os Apóstolos, os mártires, as virgens e todos os santos. Ele invoca os santos de todas as condições: S. João Batista, profeta; Sto. Estevão, diácono; S. Mateus e S. Barnabé, apóstolos; Sto. Inácio, bispo; Sto. Alexandre, papa; S. Marcelino, padre; S. Pedro, exorcista; Sta. Perpétua e Sta. Felicidade, mães. Qualquer que seja a posição que os tenha colocado a Providência, temos no céu, protetores e modelos que se santificaram em todos seus deveres.

XIII. A SEGUNDA ELEVAÇÃO OU A MORTE DE NOSSO SENHOR

Após a ter adorado, o padre toma a santa hóstia, a eleva acima do cálice, faz três sinais da cruz em memória das três horas que o Salvador passa sobre o instrumento de seu suplício(182). Em seguida, separando de algum modo o corpo do sangue de Jesus Cristo, para ilustrar a divisão de seu corpo e de sua alma, ele faz dois sinais da cruz fora do cálice. A alma é aqui representada pelo sangue, pois é assim que remarca Sto.Tomás, dizendo usualmente que a alma reside no sangue, porque este último é indispensável à vida. Perguntando-lhe porque o padre não faz três sinais da cruz (com o cálice), como parecia exigir a tríplice substância que se achava em Jesus Cristo, Bento XIV responde que a morte só separa, no Filho de Deus, o corpo e a alma. A divindade permanece inseparavelmente unida a uma e a outra.

O som do carrilhão é uma imagem da revolta da natureza nesta hora suprema(183). Nesse momento, na quinta-feira santa, na França, todos os sinos badalavam para anunciar em um concerto unânime, para o céu e a terra, esse grande acontecimento. Era nesse momento que se abriam os véus do santuário para os fiéis. Abria-se as cortinas do altar antes do Pai Nosso, em memória do véu do templo rasgado com a morte de Jesus Cristo. Alguns autores vêem o mesmo simbolismo na patena elevada acima do cálice(184). Enfim, após essas diversas cerimônias, o padre, rompendo o silêncio do Cânon, deixa escapar um grito:

Por todos os séculos dos séculos
Per ómnia saécula saeculorum

Ora, diz o Evangelho que “Nosso Senhor solta um grande grito, e inclinando a cabeça, expira(185)”.

Ele expira, e, por sua morte, Ele nos dá a esperança, a felicidade e a vida. Ele morre, e sua morte destrói a própria morte. Ó morte, outrora poderosa, onde está agora tua vitória? Ó inferno, onde está seu aguilhão? E, com efeito, Jesus Cristo, morrendo, triunfou sobre a potência infernal, e porque Ele se fez obediente até a morte da cruz, seu Pai o exaltou acima de toda criatura, e Lhe deu o um nome acima de todo nome, que faz todos tremerem, e diante o qual, todo o céu a terra e os infernos se inclinam. É para recordar esse triunfo luminoso do Senhor, que o padre eleva nesse momento o cálice e a hóstia, e os fiéis se inclinam para adorá-lo(186).

Humilhemo-nos na segunda elevação, e que nossas frontes, piedosamente inclinadas, honrem Jesus Cristo inclinando a cabeça e dando o último suspiro.

(165) Expositio Missæ
(166) L. IV, c.20
(167) Alcuino, Dos ofícios divinos.
(168) Jo 17, 11
(169) Carta LXIII
(170) Cânon 19
(171) Is 60, 15
(172) Bento XIV, Do santo Sacrifício da Missa, l.II, c.10, art.10
(173) Gavantos, part. II, tit.7
(174) Mt 26, 13
(175) Santo Tomás, part III, quest.83, art.5
(176) Lc 7, 48;50
(177) Jo 13, 10
(178) Mt 25, 40;41
(179) Explicação das Cerimônias da Missa – Mitrale, l.III, c.6 Honorius d’autun
(180) Mt 27, 52
(181) Lc 22, 42
(182) Santo Tomás
(183) Bento XIV, 1, II, c.17
(184) Inn. III, 1.V, c.11
(185) Mt 27, 50
(186) Jo 19, 30


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